16 de agosto de 2012

O RECADO DO JUAREZ PARA OS CANDIDATOS.


Caros senhores candidatos a prefeito da minha sagrada cidade de Joinville

Quem sou eu para dar conselhos? Porém, permito dar algumas dicas. Sou urbano de pai e mãe. Conheço muito mais cidades do mundo do que vocês de palanques de comício. Já montei mais de 36 atelieres em várias partes desta terra de Deus. De todos, como num v

entre fértil, fiz minha pátria, não importando em que lugar fosse, aqui ou acolá. O inteligente aprende vendo os erros dos outros. Todo forasteiro que tenta impor seus valores em terras alheias acaba sendo sacrificado; boi no pasto do vizinho é vaca. É necessário saber, com muito cuidado, seduzir, não impondo suas verdades, mas sim deixando transparecer. Cada cidade já tem seu código, sua moral, seus pesos e medidas. Não tente mudar. Mesmo por que a cidade tem mais tempo de vida que os senhores. E, com certeza, os senhores irão morrer muito antes que ela.

Como joinvilense de corpo e alma, tenho consciência de que nossa querida cidade não tem grandes apelos de belezas anatômicas, como praias, lagos, montanhas cobertas de neve, cascatas, ilhas, dunas e outras maravilhas de valores turísticos e ecológicos. Temos alguns morros que, se não tivermos atenção, vão virar favelas. Sou testemunha da transformação dos morros do Rio de Janeiro. Na gastronomia, temos algumas delícias, pratos e doces típicos da nossa cultura, porém não é dado estímulo às novas gerações para aprenderem as receitas da vovó.

Temos um rio morto e podre. Vários prefeitos prometeram salvá-lo, mas nada aconteceu. Também vivi como testemunha ocular que o rio Cachoeira já foi tão bonito quanto o rio Sena em Paris e o rio Arno em Florença. Lembro que, aos domingos, nas margens, as famílias faziam piquenique. Havia competições de barcos a remo. Namorados navegando em canoas, outros simplesmente mergulhando nas águas limpas e senhoras nas câmaras de pneus no belo e largo rio. Navios de grande calado atracavam no porto do Bucarein ou no do mercado municipal, trazendo riquezas do mundo (tenho dezenas de fotos tiradas por meu pai, João Machado). Afinal, o rio foi o caminho para chegada dos primeiros imigrantes, se isso fosse hoje, voltariam todos caminhando sobre a lama.

Nosso clima é outra coisa séria e que ninguém reflete sobre. Ou chove muito ou tem sol de rachar, com os mesmos problemas que se repetem ano a ano: inundações, deslizamentos, engarrafamentos, postes caídos, etc, etc. E os eleitores pedestres com a água na cintura. Caros senhores, estes problemas já conhecidos – mais esgoto, transporte público, saúde, luz, gás, educação... – não é privilégio para o povo; é obrigação do governo.

Vamos proteger os que andam a pé, que é o meu caso (joguei no lixo meu carro quando fiz 60 anos, meu melhor presente). Pessoas a pé também são humanas e têm sentimentos. Digo isto porque arquitetos, engenheiros e outros mais acabaram com as marquises na nossa cidade. Em muitos lugares do mundo, caminho tranquilamente sem me molhar ou assar os miolos, graças às protetoras marquises que foram criadas para isto. Plante árvores de folhas grandes por toda a cidade. Generoso que sou, dou de graça o nome da nova campanha: “Uma árvore para cada cidadão”. Simples, bonito e útil.

O código de Joinville está ficando nebuloso. Na verdade, é um grito de nostalgia de coisas que os governos anteriores deixaram de lado. “Cidade das Bicicletas”, que bicicletas? Este veículo nasceu para ser transporte, não vejo alguma circulando pelas ruas, nem mesmo um projeto decente de ciclovias, onde o ciclista possa ir tranquilamente ao banco, trabalho, escola, supermercado e até o lazer.

“Cidade das Flores”, onde? Quais? Quantas? Só vejo as tais nas vitrines das lojas de 1,99, todas de plásticos com cores ácidas, já meio desbotadas pelo sol do meio-dia. Os parques da cidade, onde estão? Lugares onde as pessoas possam caminhar entre árvores, flores e orquídeas ao canto de passarinho e cigarras. Lembram das cigarras?

Tudo virou estacionamento, onde em breve irão construir mais um espigão de mau gosto. A cidade está à beira de um colapso de identidade. Ficaremos igual a qualquer cidade medíocre deste enorme Brasil.

Esqueçam o Centro da cidade. Guardem o que resta deste espaço num caixinha de joias e façam disto um patrimônio histórico único. Proíbam os carros, camelôs, botequins e façam desta área um lugar para se andar a pé, longe dos barulhos urbanos. Em todas as cidades inteligentes do mundo, é construído o shopping center longe do Centro, obrigando as pessoas a saírem do miolo da cidade e atendendo aos moradores da periferia. Protegendo, assim, a pracinha florida que abriga o coreto com a bandinha, a esquina de encontros e os pequenos comerciantes. Na rua do Príncipe, que só Joinville tem, incentivem os cafés típicos, lojas de lembranças, livrarias de autores locais, galerias de arte com artistas da terra, chocolates, sorvetes. O joinvilense ainda chora de saudades do sorvete da Polar, que não existe há mais de 40 anos.

Tenham uma honesta humildade se eleitos. Os senhores não virarão imperadores da cidade. Terão apenas uma pequena autoridade de síndico. Cuidem da melhor forma possível do que existe e criem coisas novas, desde que sejam geniais. Cerquem-se de pessoas talentosas e cultas, para bem polir seus projetos. Todos os senhores já são bastante viajados, mas isto não basta. Parem de frequentar lojas de departamento e só pensarem em compras. Visitem museus, galerias, escolas, catedrais e igrejas. Esqueçam os restaurantes caros em busca de vinhos estrelados, tomem o vinho da casa e vão conhecer os jardins, parques e avenidas. Não aluguem limusine, andem a pé pelas ruelas das cidades, metrô ou ônibus. Aprendam a observar, observar tudo e todos. Comprem uma máquina fotográfica, não para o álbum de viagem, mas para fotografar ideias e soluções. Sejam uns vampiros de ideias boas para adaptarem para nossa cidade. Fiquem tranquilos, roubar ideias não é pecado e nem ilegal. Picasso fez isto nas artes e foi o maior pintor, bebeu na fonte das esculturas greco-romanas e máscaras africanas. Todos os artistas impressionistas se inspiraram nas artes seculares dos japoneses.

Quando tiverem alguma dúvida, perguntem a um desconhecido, jamais aos seus assessores, pois sempre irão responder ao seu favor para lhe agradarem.

Sei que os tempos mudaram e não mais se administra uma cidade como outrora. O poder do prefeito não tem mais alguma autonomia. Não é mais “personagem”. Agora ele tem que dividir a mesa de trabalho com outros filhos de outros casamentos. Tem que seguir à risca as leis da bíblia do partido. Tem que rezar os projetos de suas seitas, igrejas ou bordéis patrocinadores. Portanto, caros senhores candidatos, não prometam nada, nada mesmo, que não possam realizar. O povo – entre ele, eu – ainda acredita na dignidade e na grandeza do ser humano. Por todo nosso amor a Joinville!

Juarez Machado, Joinville, agosto de 2012.

*Juarez Machado, joinvilense, é artista plástico, escultor, desenhista, caricaturista, designer, escritor, fotógrafo e ator. Tem seu trabalho reconhecido em todo o mundo, seja em prêmios ou em exposições. É autor do mural “O Grande Circo”, que dá as boas-vindas aos visitantes do Centreventos Cau Hansen, e celebrou seus 70 anos com a mostra “Soixante-Dix”, exposição aberta no ano passado em Paris e que está em cartaz até 2 de setembro no Museu de Arte de Santa Catarina (Masc).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Ocorreu um erro neste gadget